Governo reduz a transparência sobre dados da pandemia no Brasil


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Pacientes com coronavírus internados em Hospital de Campanha em Santo André, São Paulo, Brazil, 6/5/2020. REUTERS/Amanda Perobelli

Em meio ao avanço dramático da epidemia do coronavírus no país, o Ministério da Saúde passa a dar menos destaque a números de mortes e casos. Atrasos e ênfase em dados “positivos” se tornaram rotina na pasta. O Brasil vem registrando um aumento dramático no número de mortes e novos casos de covid-19, a um ritmo que já supera mil óbitos por dia. Já são 34.021 mortes e quase 615 mil infecções pelo novo coronavírus. Quem acompanha como o Ministério está divulgando esses dados pode ter a impressão que a situação no país não poderia estar mais calma.

Cabe à pasta consolidar e divulgar os dados fornecidos pelas secretarias estaduais sobre o avanço da pandemia. Mas, a partir do início de maio, na medida em que os impactos da doença se intensificaram, a forma como os dados são apresentados mudaram. O ministério esvaziou as coletivas de imprensa, que não são mais diárias, e adotou uma abordagem “otimista” em relação aos efeitos da pandemia, dando ênfase ao número de recuperados. A divulgação dos boletins com os mortos e contaminados, por sua vez, desapareceu das redes sociais da pasta.

Atrasos

Os números consolidados da pandemia estão sendo divulgados cada vez mais tarde pelo Ministério da Saúde. Em abril, na gestão de Luiz Henrique Mandetta, eles normalmente saíam por volta de 17h no horário de Brasília, durante coletivas de imprensa.

Depois, com a nomeação de Nelson Teich para a chefia da pasta, passaram a ser divulgados por volta das 19h. No final de maio, já sem Teich na pasta, os dados passaram a ser publicados com atrasos cada vez mais constantes, muitas vezes depois da 20h.

Nesta quarta-feira, uma nova marca: 22h. Na ocasião, a pasta alegou “problemas técnicos” para explicar a demora. Estranhamente, quando a tabela foi finalmente distribuída, ela indicava que os números haviam sido fechados às 19h.

Nesta quinta-feira, os dados foram novamente divulgados às 22h. Desta vez, a pasta não deu nenhuma explicação, apenas negou que os atrasos tenham sido propositais.

Os dois atrasos coincidiram com dois recordes consecutivos no número de mortes por covid-19. Na quarta, foram registradas 1.349 mortes. Na quinta, 1.473.

Sem notícias negativas nas redes sociais

Não foi a primeira vez que uma mudança na forma da divulgação dos dados coincidiu com um novo recorde de mortes. Em 19 de maio, o ministério parou de divulgar a íntegra dos boletins nas redes sociais Twitter e Facebook. Foi justamente no dia em que o país registrou pela primeira vez mais de mil mortes em 24 horas.

Nas redes sociais, no lugar do boletim completo com mortes e casos, o ministério passou a replicar publicações “otimistas” da Secretaria de Comunicação do Planalto (Secom), que já vinha divulgando desde o final de abril um chamado “Placar da Vida”, que inclui apenas o número de infectados, recuperados e “em recuperação”, sem mencionar o número de mortos em decorrência da doença.

Na noite de 18 de maio, antes da primeira marca diária de mil mortes ter sido atingida, a Secom sintetizou a visão numa publicação no Twitter que destacou a marca de 100 mil recuperados: “Hoje o Brasil comemora 100 mil vidas salvas em meio à crise mundial. Enquanto muitos focalizam a morte, o Governo do Brasil trabalha pela vida e celebra a vida.”

Desde que essa publicação foi ao ar, o país contabilizou mais 17 mil mortes (metade do total desde o início da pandemia) e 343 mil novos casos.

Novos formatos no site do ministério

Antes de o novo formato ter sido escancarado nas redes sociais, o próprio site do Ministério da Saúde já vinha adotando uma tática de diminuir o destaque dado às mortes e aos novos casos nos releases enviados à imprensa e reproduzidos em seu site.

A partir de 10 de maio, o número de mortes sumiu dos títulos dos textos. “Coronavírus: 162.699 casos confirmados e 11.123 mortes”, apontava o título naquele dia. No dia seguinte, porém, os “recuperados” entraram no lugar das mortes.

Em 18 de maio, foi a vez de o número de casos sumir dos títulos, ficando apenas os recuperados. O tom dos textos também mudou. Nesse dia passaram a incluir frases otimistas, como “uma boa notícia para começar a semana”. Quem quisesse se informar sobre as mortes e casos tinha que ir até o quinto parágrafo dos textos.

Não foi o fim. Nesta quarta-feira, pela primeira vez em meses, o ministério não publicou nenhum texto. O mesmo ocorreu na quinta-feira. Quem quisesse acessar os números tinha que consultar as tabelas do “Painel Coronavírus”, que não aparecem com destaque na homepage do ministério.

Terra


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